16 de novembro | 2025

O espelho que reflete a nossa humanidade

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O caso da agressão à cachorra Olivia em Olímpia expõe um lado sombrio do ser humano que não pode ser ignorado.


Jos
é Antônio Arantes – Na tarde de 10 de novembro de 2025, uma câmera de segurança registrou uma cena revoltante inicialmente citada como no bairro Santa Rita e no Boletim de Ocorrências como sendo do Jardim Hélio Casarini, em Olímpia: um homem se aproxima de uma cachorra na calçada e, sem qualquer provocação evidente, a golpeia com uma sacola e depois desfere um chute contra o animal.

O vídeo, divulgado nas redes sociais e amplamente repercutido pela imprensa, local e regional, causou indignação coletiva. A cachorra Olivia, vítima da brutalidade, sobreviveu e passa bem, segundo sua tutora. Mas o episódio deixou marcas mais profundas: ele nos obriga a olhar para o espelho e perguntar — o que leva alguém a cometer tamanha crueldade? E o que isso revela sobre quem somos como sociedade?

Não se trata de um incidente isolado. A cada semana, casos semelhantes ganham os noticiários, reforçando que a maldade contra animais, infelizmente, ainda é uma realidade banalizada por alguns. A diferença é que agora, com câmeras por todos os lados e redes sociais atentas, os agressores perdem o manto da impunidade silenciosa. Ainda assim, resta a inquietação: por que alguém faz isso?

A PSICOLOGIA DO ATO CRUEL

Especialistas apontam que atos como o que vitimou Olivia não nascem do nada. Muitos agressores de animais apresentam traços de personalidade antissocial – também conhecidos como psicopáticos – marcados por frieza, ausência de empatia e incapacidade de se colocar no lugar do outro. O agressor, nesses casos, não sente a dor do outro como real. Para ele, o animal não passa de um objeto a ser controlado, descartado ou violentado conforme sua vontade.

Há ainda casos motivados por impulsividade. Pessoas com dificuldades de controlar a raiva descontam sua frustração em alvos vulneráveis: um cachorro na calçada, um gato na varanda, um animal que apenas “estava no lugar errado na hora errada”. Trata-se de uma projeção emocional, onde o mais fraco vira válvula de escape para desequilíbrios internos.

QUANDO O MAL TORNA-SE BANAL

Hannah Arendt, ao estudar a monstruosidade cometida por figuras aparentemente comuns durante o nazismo, cunhou o termo “banalidade do mal”. A tese: o mal pode ser praticado não por sádicos evidentes, mas por pessoas comuns, incapazes de refletir eticamente sobre suas ações. Em menor escala, o homem que chuta uma cachorra sem remorso encaixa-se nessa definição. Ele banaliza o sofrimento do outro e trata a violência como trivial.

A banalidade do mal cresce quando a sociedade silencia. Quando o vizinho que presencia uma agressão cruza os braços. Quando o poder público não pune. Quando parte da população ainda acredita que “é só um bicho”. A omissão legitima o ato cruel. A indiferença é o terreno fértil da brutalidade.

A CIÊNCIA MOSTRA: NÃO É “SÓ UM BICHO”

A neurociência tem revelado que a empatia é, em parte, resultado de estruturas cerebrais específicas – como os neurônios-espelho – e que sua ausência pode favorecer condutas insensíveis ou até sádicas. Mas mesmo em casos com predisposição biológica, o fator decisivo continua sendo o meio social e a educação moral recebida. Ninguém nasce chutando cachorro. Aprende-se a ser cruel. Ou, pior, aprende-se a naturalizar a crueldade.

Por outro lado, estudos apontam que atos de violência contra animais muitas vezes antecedem outras formas de agressão. A Teoria do Elo, reconhecida em criminologia, mostra que quem maltrata animais pode, em algum momento, fazer o mesmo com humanos. Não por acaso, 71% dos agressores de animais também têm histórico de violência doméstica ou interpessoal, segundo dados do governo brasileiro.

O REFLEXO DE UMA SOCIEDADE QUE AINDA FALHA

A crueldade contra animais é reflexo de falhas sociais profundas: de um sistema educacional que ainda ensina pouco sobre empatia, de lares marcados por agressividade, de comunidades onde o sofrimento do outro — humano ou animal — ainda é tratado com descaso. É também reflexo de um país que, embora avance na legislação, ainda engatinha na aplicação efetiva da lei.

A Lei 14.064/2020 prevê pena de 2 a 5 anos de prisão para quem cometer maus-tratos contra cães e gatos. Mas na prática, casos como o de Olímpia seguem um roteiro conhecido: o agressor é identificado, ouvido e liberado. Sem prisão. Sem punição exemplar. Sem reeducação. O crime vira estatística. A vítima, memória.

FILOSOFIA E MORALIDADE:
O QUE DIZEM NOSSOS PRINCÍPIOS?

Filósofos como Kant e Schopenhauer já defendiam que o tratamento dado aos animais diz muito sobre o caráter humano. Kant dizia que a crueldade com os animais “endurece o coração” e torna as pessoas mais propensas a tratar mal os outros humanos. Schopenhauer foi além: quem é cruel com os animais “não pode ser uma boa pessoa”.

Nos atos contra Olivia, vimos uma falha ética evidente: a escolha consciente de praticar o mal contra um ser incapaz de se defender. E quando o mal é dirigido aos mais frágeis, ele revela a verdadeira natureza do agressor. Há algo de profundamente covarde em agredir quem não pode revidar.

UM CHAMADO À RESPONSABILIDADE COLETIVA

É preciso dizer com todas as letras: esse tipo de crueldade não pode ser relativizado. Não há justificativa possível. Nenhuma alegação de “legítima defesa” sustenta a brutalidade flagrada pelas câmeras. A agressão foi gratuita, desnecessária e moralmente repulsiva. E deve ser tratada como tal — pela justiça, pela imprensa, pela sociedade.

Cabe a nós, enquanto coletividade, fazer a escolha oposta à do agressor. Escolher a empatia, o respeito à vida, o zelo pelos mais vulneráveis. Cabe às escolas ensinar que um animal sente dor e medo como nós. Cabe às famílias educar pelo exemplo. Cabe ao Estado aplicar a lei, com firmeza. E cabe a cada cidadão recusar a indiferença.

Se queremos uma sociedade mais justa, ela começa onde mais se revela nossa humanidade: no modo como tratamos os que não têm voz.

 

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