29 de novembro | 2015
Mesmo sendo pedreiro e torneiro mecânico homem se vê obrigado a viver debaixo de ponte em Olímpia

Essa é a histórica contada pelo paraense Fabrício dos Santos Gonçalves (foto), de 35 anos de idade, que antes de chegar a Olímpia passou por Bebedouro em busca de um trabalho decente. Há quatro meses ele e outros dois companheiros (um pedreiro profissional e um servente de pedreiro) estão residindo debaixo da ponte da Rua Benjamin Constant, no centro de Olímpia. Além deles, o local também serve de abrigo a um casal.
Trata-se de uma situação que foi confirmada a partir de vários comentários, pela reportagem desta Folha da Região na tarde da quarta-feira, dia 25. Os rumores diziam que várias pessoas estavam morando debaixo da ponte que fica no cruzamento da Rua Benjamin Constant com a Avenida Aurora Forti Neves, exatamente no local onde iniciou a dragagem do rio em direção à ponte do Clube de Campo Álvaro Brito (CCAB) que deverá receber futuramente uma obra futurística para a revitalização da avenida.
Ao chegar ao local a reportagem encontrou com três homens, sendo que dois deles estavam dormindo em papelões e Fabrício dos Santos Gonçalves, que estava acordado.
Inicialmente, ao ser questionado se gostaria de conceder uma entrevista para o jornal, ele relutou em razão de temer que isso pudesse prejudicá-lo. Quer dizer, que alguém, ao ler a matéria resolva ir lá retirá-los a força do local.
No local havia um fogão improvisado onde em uma panela havia feijão e em outra outro tipo de comida, aparentemente frango. Fabrício contou que ele dorme em colchão, mas que sente pena dos outros dois amigos dormirem em caixas de papelão.
Do outro lado da margem do rio havia alguns pertences de outras pessoas, que Fabrício contou serem de um casal que também está morando lá, mas que no momento estava trabalhando e só chegaria ao final da tarde para dormir.
Segundo ele, há algumas semanas choveu forte e foram surpreendidos com a água subindo no meio da noite sem terem tempo de salvar alguns pertences.
Havia vários peixes da espécie tilápia que estavam em cima de um papelão que Fabrício disse terem pescado ali mesmo e que estavam secando com sal para fritar e se alimentar.
Enchente noturna quase carrega um dos
que moram debaixo da ponte pelo rio abaixo
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“Esses dias teve uma inundação e quase que um companheiro meu desceu por água abaixo e foi embora. Mas as coisas da gente sumiram tudo na água. Devem estar lá, para baixo do Thermas (dos Laranjais) enroscadas ou foi embora, mas conseguimos tudo de novo e graças a Deus”, informou.
Fabrício dos Santos Gonçalves conta que é a primeira vez que mora e vive debaixo de uma ponte e que a sensação não é boa: “ruim demais, nunca tinha morado não, mas como tenho passado por essa ocasião, debaixo dessa ponte aqui, eu espero que alguém venha dar uma oportunidade para nós, nós somos seres humanos, não somos bichos. Quem mora embaixo d´água é peixe. Alguém tem que dar uma moradia para a gente e a gente trabalhar. Porque a gente não quer viver de albergue, ficar preso, não poder sair? Aí o que eu vou arrumar para minha vida? Nunca vou arrumar nada”.
Entretanto, mesmo enfrentando essas dificuldades diz que não está arrependido de vir a Olímpia: “não, eu sei que o povo daqui é muito acolhedor e não vai deixar passar por despercebidos, todo mundo já está vendo o que está acontecendo. Eu tenho certeza”.
Após conceder a entrevista ele demonstrou que a Folha da Região passou a ser vista por ele, principalmente, como uma grande oportunidade de obter uma melhoria para a sua vida: “a gente sabe que depois dessa reportagem alguém vai nos ajudar. A gente quer uma casa, uma oportunidade para começar a viver. Para gente começar a trabalhar e mostrar para o povo quem é a gente”.
Ele contou que funcionários da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social já estivem lá conversando com eles: “o pessoal da Assistência Social veio aqui, mas é que nem eu falo para você. Eu vou trabalhar, chegar do serviço, tomar um banho e ficar preso? Eu não posso fazer isso. Como vou ter uma família? Nós estamos aqui que é para trabalhar. Eu e meus amigos, eu sou pedreiro, torneiro mecânico, o outro é pedreiro profissional o outro é servente, estamos precisando de um emprego urgente. Estamos esperando uma oportunidade, quem estiver escutando, pelo amor de Deus”.
Fabrício conta que deixou a família para trás em busca de melhorar sua vida: “tenho mulher, tenho filho, tenho mãe e não tenho pai. Eu tenho contato com eles, mas eu quero voltar para casa na hora que eu estiver numa casa. Eu quero ajudar o meu filho na hora que eu estiver numa casa e estabilizado em um serviço. Eu quero ajudar meu filho porque ele está precisando de mim. Mas por enquanto não tem como. Ele não sabe da situação que eu vivo e nem quero que ele saiba. Eu vim pra cá na certeza que eu iria conseguir uma vida melhor”.
Homens vivem à espera de um trabalho e um lar
De acordo com o paraense Fabrício dos Santos Gonçalves, de 35 anos de idade, que junto a outras quatro pessoas está vivendo debaixo da ponte do cruzamento da Rua Benjamin Constant com a Avenida Aurora Forti Neves, na região central de Olímpia, principalmente ele e seus dois companheiros estão vivendo no local à espera de uma oportunidade de trabalho e de uma casa decente para morar
“A gente simplesmente está querendo uma moradia para a gente. Uma moradia e um serviço. A gente está esperando um serviço, mas ainda não conseguimos e a gente está morando aqui debaixo da ponte”, justificou.
Mesmo se recusando a ir para um albergue – Olímpia tem a Casa do Migrante – Fabrício dos Santos Gonçalves diz que é difícil viver no local. “Aqui debaixo (da ponte) fica muito difícil para a gente e se alguém estiver vendo a gente que dê uma oportunidade para a gente entrar num serviço e numa casa”, pede.
Sobre ir para um albergue, ele explica que nesse tipo de lugar o período de permanência é curto: “um dia ou dois, só”. Mas acrescenta: “e a gente não quer saber disso, a gente quer trabalhar, o nosso destino é trabalhar e conseguir daqui para um lugar melhor”.
Novamente falando em ter uma casa decente Fabrício dos Santos Gonçalves ainda afirma: “porque não tem como a gente trabalhar e voltar para debaixo da ponte. Como vou tomar um banho? Vou ficar pedindo para o povo na rua? Não tem jeito. Não tem homem que aguente isso”.
FUGINDO DA MISÉRIA
Morando no local há aproximadamente quatro meses, ele relata que é de Bebedouro, mas que já está vindo de Belém do Pará para Olímpia. Já sobre seus amigos conta que um é de São Paulo e outro de Franca.
“Viemos pra cá porque aqui está melhor de serviço, lá não tem nada e não se encontra nada. Aqui encontramos uma oportunidade de serviço, aí estamos esperando ver se consegue. Agora, se alguém tiver uma oportunidade de serviço para arrumar para a gente, eu tenho certeza que força de vontade a gente tem e que Deus vai abençoar. Vai surgir, alguma coisa pra gente que está aqui debaixo (da ponte). Vai ter que surgir”, diz pedindo ajuda à população.
“Eu sei que aqui é uma cidade muito boa, acolhedora, é uma cidade que dá muitas oportunidades para as pessoas e estamos esperando uma oportunidade para podermos trabalhar aqui. A gente quer uma moradia e um trabalho. Sobre móveis, essas coisas, a gente devagarzinho vai trabalhando e conseguindo o que a gente precisa. Se for uma cesta básica, uma coisinha e outra, a gente vai trabalhar e conseguir. A gente só quer uma moradia para poder levantar na vida e para poder mostrar para o povo que a gente não é bicho, a gente é gente”, reforça.
Sobre as suas qualidades profissionais ele relatou: “sou torneiro mecânico e sou pedreiro, tenho mais de dois anos de curso de torneiro mecânico, tenho mais de sete anos de pedreiro, se alguém estiver precisando, dá uma força para gente. Nós estamos em cinco pessoas, tem uma família, um casal que está do outro lado da ponte e inclusive estamos pedindo ajuda para eles também. São pessoas muito humildes. Esse casal está trabalhando e vindo dormir embaixo da ponte”.
De acordo com ele, por enquanto “a gente toma banho num rio, numa fazenda. A gente se alimenta. A gente pede. A gente não sabe roubar. O pessoal dos restaurantes da redondeza tem nos ajudado. A gente nunca os atormentou e nem a ninguém que mora aqui na cidade. Por isso. eles vêm até nós para poder ajudar. Eles que vêm até aqui, a gente não vai lá não”.
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