13 de setembro | 2026

A epidemia silenciosa que já chegou às crianças

Compartilhe:

Ansiedade e depressão avançam em todas as idades e já pressionam a rede pública. Medicamentos e profissionais são indispensáveis, mas enfrentar o problema exige também discutir família, trabalho, escola, redes sociais, solidão e o modo como estamos vivendo.

José Antônio Arantes – Há uma epidemia crescendo diante de nossos olhos e, ao contrário das tradicionais, ela não se espalha por vírus ou bactérias. Nas entrevistas concedidas ao Pod Pai e Filha, o secretário municipal de Saúde, Márcio Iquegami, usou justamente essa palavra ao falar dos problemas de saúde mental: “epidemia”. E acrescentou algo ainda mais preocupante: os casos estão aumentando em todas as idades e ansiedade e depressão já aparecem até entre crianças.

Olímpia possui, segundo o próprio secretário, cinco profissionais de psiquiatria atendendo na rede e algo entre 14 e 15 psicólogos. É uma estrutura considerável para uma cidade do nosso porte. Mas talvez justamente aí esteja a pergunta que precisa ser feita: se aumentamos profissionais e continuamos aumentando pacientes, será suficiente apenas ampliar indefinidamente a estrutura destinada a tratar quem adoece?

NÃO EXISTE UMA ÚNICA CAUSA

Seria confortável encontrar um culpado. O celular, talvez. As redes sociais. A pobreza. O excesso de trabalho. A ausência dos pais. As cobranças da escola. A solidão. O problema é que ansiedade e depressão não funcionam assim. A Organização Mundial da Saúde aponta uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Perdas, violência, dificuldades econômicas, isolamento, doenças, ambiente familiar e outras experiências podem aumentar a vulnerabilidade.

Mas isso não significa ignorar aquilo que mudou profundamente em nossa forma de viver. Trabalhamos correndo, comemos correndo, conversamos olhando para uma tela e descansamos acompanhando a vida aparentemente perfeita dos outros. Crianças entram muito cedo nesse universo. Adolescentes são submetidos diariamente a comparações de beleza, corpo, dinheiro, popularidade e sucesso. A própria OMS alerta para riscos do uso problemático das redes sociais, embora ressalte que a relação entre tecnologia e saúde mental é complexa e não pode ser resumida a uma relação simples de causa e efeito.

UMA GERAÇÃO QUE NÃO PODE FRACASSAR

Talvez tenhamos construído também uma sociedade em que aparentemente ninguém pode perder. É preciso ser bonito, feliz, bem-sucedido, produtivo e interessante o tempo todo. A vida real, porém, continua sendo feita de derrotas, rejeições, dificuldades financeiras, amores que acabam, empregos que desaparecem, doenças, envelhecimento e morte. Se não ensinarmos nossas crianças e adolescentes a conviver também com frustrações, estaremos preparando pessoas para um mundo que simplesmente não existe.

Há ainda o adulto pressionado pelas contas, pelo emprego, pelas dívidas e pela responsabilidade de manter uma família. Há idosos enfrentando solidão. Há crianças que convivem cada vez menos com adultos disponíveis. Há famílias que vivem na mesma casa, mas quase não conversam. Tudo isso não produz automaticamente uma doença mental, mas compõe um ambiente que não pode ser desprezado quando tentamos compreender por que tanta gente está sofrendo.

TRATAR É MUITO MAIS DO QUE MEDICAR

Medicamentos salvam vidas e são fundamentais quando corretamente indicados. Psicólogos e psiquiatras também são indispensáveis. Mas saúde mental não pode ser reduzida a entregar uma receita e mandar o paciente para casa. A própria ciência aponta tratamentos psicológicos eficazes para ansiedade e depressão e, conforme a gravidade e avaliação profissional, medicamentos podem integrar o tratamento. Atividade física, sono adequado, convivência social e rede de apoio ajudam, mas não substituem atendimento profissional quando ele é necessário.

O SUS prevê justamente uma rede de cuidado que começa também na atenção básica e pode envolver UBS, psicólogos, psiquiatras e CAPS. Em Olímpia, portanto, a discussão necessária não deve ficar limitada à quantidade de profissionais. Precisamos conhecer a demanda, o tempo de espera, quantos pacientes estão em acompanhamento, quais faixas etárias mais cresceram e quantas pessoas abandonam o tratamento. Sem medir o problema, estaremos sempre correndo atrás dele.

É PRECISO DESCOBRIR POR QUE ESTAMOS ADOECENDO

Se ansiedade e depressão realmente avançam a ponto de um médico e secretário municipal de Saúde falar em epidemia, a resposta não pode ficar restrita aos consultórios. A Saúde precisa tratar; a Educação precisa ajudar a prevenir; as famílias precisam reaprender a observar e ouvir; empregadores precisam olhar para ambientes adoecedores; e todos nós precisamos discutir que tipo de vida estamos construindo.

Na quinta-feira, quando escrevia este texto, 10 de setembro, Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, a pergunta que surgiu inquiria se não é mais importante saber quantos antidepressivos são distribuídos ou quantos psicólogos serão contratados, mas, mas principalmente, por que estamos precisando cada vez mais deles?

Encontrar essa resposta pode ser tão importante quanto ampliar o tratamento.

 

Compartilhe:

Comentários

Os comentários não representam a opinião do iFolha; a responsabilidade é do autor da mensagem.

Você deve se logar no site para enviar um comentário. Clique aqui e faça o login!

Ainda não tem nenhum comentário para esse post. Seja o primeiro a comentar!

Mais lidas