30 de agosto | 2026
Quando a violência na escola encontra o sofrimento que ninguém viu
As brigas registradas na escola do Maranata, no Morada Verde, e os relatos sobre ansiedade, depressão, bullying e automutilação reunidos nesta edição mostram que segurança, saúde emocional, família e educação precisam ser discutidas como partes de um mesmo problema.

O caso da escola do Maranata tornou essa realidade visível em Olímpia. As ocorrências e reclamações exigem prevenção, estrutura e resposta do poder público, mas também levantam uma pergunta mais difícil: o que está acontecendo com esses adolescentes antes de chegarem ao ponto da agressão?
VIOLÊNCIA TAMBÉM PODE SER UM SINAL
Isso não significa afirmar que todo jovem que briga sofre de ansiedade ou depressão. Seria uma conclusão errada. Mas os profissionais ouvidos nesta edição mostram que mudanças persistentes de comportamento merecem atenção. O médico Cássio Vazão lembra que sofrimento emocional pode aparecer como irritabilidade, isolamento, queda no rendimento e até agressividade.
O psicólogo Josimar Foganholi alerta para o risco de classificar rapidamente certas atitudes como “drama”, “rebeldia” ou “frescura”. Pressão escolar, expectativas familiares, dificuldades de relacionamento, rejeição e comparação nas redes sociais podem se somar. Compreender essas causas não significa desculpar agressões: acolhimento e responsabilidade precisam caminhar juntos.
O BULLYING PODE DEIXAR MARCAS
O relato da mãe e chef de cozinha Joyce Thayane mostra como o sofrimento pode permanecer escondido mesmo dentro de uma família presente. Ela acreditava que a filha estava bem até descobrir que a adolescente se automutilava. Depois, a jovem recebeu diagnóstico de ansiedade e depressão.
Entre os fatores relatados está o bullying na escola. Comentários sobre características físicas aumentaram a insegurança da adolescente e mudaram a forma como ela enxergava o próprio corpo. Isso mostra por que apelidos, humilhações e perseguições não podem ser tratados como simples brincadeiras.
A ESCOLA NÃO PODE FAZER TUDO SOZINHA
A assistente social Gisele Aparecida Mofardini Yoshida Francisco amplia a discussão ao lembrar que família, escola, comunidade e condições sociais influenciam diretamente a vida emocional dos adolescentes. Bullying, exclusão e dificuldades de relacionamento podem aumentar insegurança e isolamento, enquanto ambientes acolhedores ajudam a identificar sinais de sofrimento.
Mas não se pode jogar toda essa responsabilidade sobre professores e diretores. Professor não pode ser educador, policial, psicólogo, assistente social, médico, pai e mãe ao mesmo tempo. Se faltam inspetores, servidores ou estrutura de segurança, cabe ao Estado corrigir. E cabe às famílias ensinar respeito, limites e convivência antes que o problema chegue ao portão da escola.
OS ADULTOS PRECISAM PERCEBER MAIS
O depoimento de Joyce também mostra que amar e acompanhar não significa necessariamente saber tudo o que acontece emocionalmente com um filho. A rotina corrida pode fazer com que isolamento, irritação, silêncio e mudanças de comportamento sejam vistos apenas como características normais da adolescência.
É nesse ponto que os quatro depoimentos desta edição se encontram. A mãe, o médico, o psicólogo e a assistente social chegam a uma conclusão semelhante: é preciso observar mais, ouvir mais e julgar menos. Nem toda tristeza é depressão e nem toda rebeldia é sofrimento psicológico, mas mudanças persistentes não devem ser ignoradas.
SEGURANÇA E ACOLHIMENTO
A resposta ao episódio da escola do Maranata, portanto, não deve ser escolher entre segurança e saúde emocional. Precisamos das duas. Quando existe violência, é necessário intervir e responsabilizar. Quando há bullying, é preciso proteger a vítima. Quando existem sinais de sofrimento, família, escola e rede pública precisam ajudar o adolescente.
A prevenção começa antes da próxima briga. Começa quando um professor percebe uma mudança, quando um pai pergunta sem acusar, quando colegas deixam de transformar humilhação em diversão e quando a sociedade entende que algumas explosões têm uma história anterior.
ANTES DA PRÓXIMA BRIGA, É PRECISO PERGUNTAR
A escola do Maranata precisa de segurança e estrutura. As vítimas precisam de proteção. Quem agride precisa de limites e responsabilidade. Mas nossos adolescentes também precisam de uma comunidade capaz de olhar além do comportamento imediato.
Talvez, diante da próxima ocorrência, não baste perguntar apenas “quem começou a briga?”. É preciso também perguntar: “O que está acontecendo com vocês?” E, principalmente, estar disposto a ouvir a resposta.
Comentários
Os comentários não representam a opinião do iFolha; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Você deve se logar no site para enviar um comentário. Clique aqui e faça o login!
Ainda não tem nenhum comentário para esse post. Seja o primeiro a comentar!




