22 de agosto | 2026

Escola nova não pode nascer como Morada do Medo

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A crise relatada na escola estadual do Morada Verde expõe falhas de estrutura, omissão na prevenção e a urgência de separar responsabilidade pública, dever dos pais e proteção real dos alunos.

José Antônio Arantes – A escola nova do Morada Verde deveria começar sua história como símbolo de avanço para uma região que cresceu e precisava de estrutura educacional. Mas, antes mesmo de se consolidar como conquista, já carrega um peso que nenhuma unidade escolar deveria carregar: o medo das famílias.

Quando mães relatam que os filhos estão inseguros, que há brigas frequentes, que alunos voltam machucados e que a escola parece não dar conta da rotina, o problema deixa de ser apenas reclamação e vira alerta público.

OS RELATOS NÃO PODEM SER IGNORADOS

O mais grave é que não se trata apenas de uma briga isolada. O que aparece nos relatos é uma sensação de descontrole. Pais falam em conflitos quase diários, medo nos intervalos, confusão na saída, dificuldade de diálogo com a escola e insegurança também no entorno.

Mesmo quando as informações ainda dependem de confirmação oficial, elas são sérias demais para serem ignoradas. A autoridade que espera um boletim perfeito para agir pode acabar agindo tarde demais.

PRÉDIO NOVO NÃO GARANTE ESCOLA SEGURA

O primeiro erro é confundir obra entregue com escola funcionando. Uma escola não é feita só de salas, carteiras, muro e placa de inauguração. Escola precisa de equipe, rotina, presença adulta, direção acessível, inspetores, funcionários treinados e capacidade de responder aos conflitos antes que eles virem violência. Sem isso, o prédio pode ser novo, mas o funcionamento nasce velho, frágil e improvisado.

Se uma unidade grande, com centenas de alunos, começa a funcionar sem estrutura humana suficiente, o Estado falhou. Não há como empurrar essa conta para os professores, para uma direção sobrecarregada ou para a polícia.

ESCOLA INTEGRAL EXIGE MAIS ESTRUTURA

Escola integral exige mais cuidado, porque os alunos ficam mais tempo no mesmo ambiente, circulam mais, convivem mais, fazem refeições ali e passam por mais momentos de intervalo. Justamente por isso, precisa de mais acompanhamento, não de improviso.

A responsabilidade principal é do Governo do Estado e da Diretoria de Ensino. A escola é estadual. Portanto, cabe ao Estado garantir funcionários, inspetores, organização interna, registro de ocorrências, providências disciplinares e apoio à equipe gestora.

CADA PODER TEM SUA RESPONSABILIDADE

O município pode ajudar no entorno, mas não administra a rotina interna da unidade. Essa separação precisa ficar clara para que ninguém fuja da própria responsabilidade.

Quando uma briga começa no intervalo, na fila da merenda, no corredor ou dentro da sala, o problema está no funcionamento escolar. Quando essa briga sai para a porta, a crise apenas muda de lugar. Por isso, colocar uma viatura na entrada pode ajudar, mas não resolve o núcleo da questão. Segurança externa contém o efeito. Estrutura interna enfrenta a causa.

O ENTORNO TAMBÉM PRECISA DE RESPOSTA

A Prefeitura também tem seu papel. Se há risco na travessia, falta de sinalização, dificuldade de embarque e desembarque ou confusão no trânsito, o município precisa agir. A entrada e a saída de uma escola movimentam crianças, adolescentes, pais, vans, motos, carros e pedestres. Não dá para esperar um atropelamento para reconhecer que o entorno precisa de organização.

Mas a Guarda Municipal não pode virar solução mágica para uma escola estadual. Ela pode apoiar, especialmente em momentos críticos, mas não substitui inspetor de aluno, agente escolar, equipe de apoio e gestão diária.

POLÍCIA AJUDA, MAS NÃO SUBSTITUI ESCOLA

Da mesma forma, a Polícia Militar pode ser necessária diante de risco ou crime, mas não existe polícia suficiente para corrigir uma escola que abriu sem estrutura adequada.

Há outro ponto que precisa ser dito com honestidade: nem toda culpa está no poder público. A escola recebe alunos, mas quem forma caráter primeiro é a família. Adolescente que agride, ameaça, humilha, persegue ou acha normal resolver tudo na força não nasceu assim no portão da escola. Em muitos casos, falta limite em casa, falta autoridade dos pais, falta acompanhamento e falta consequência.

EDUCAÇÃO TAMBÉM COMEÇA EM CASA

É claro que isso não diminui a obrigação do Estado. Ao contrário, aumenta. Justamente porque a escola pública recebe alunos de realidades diferentes, com histórias diferentes e problemas diferentes, ela precisa estar preparada.

Mas também é preciso parar com a ideia de que pai e mãe podem terceirizar totalmente a educação. A escola ensina. A família educa. Quando uma dessas partes falha, a outra sofre. Quando as duas falham, quem paga é o aluno que quer estudar.

REVOLTA PRECISA VIRAR DOCUMENTO, NÃO AMEAÇA

A revolta dos pais das vítimas é compreensível. Nenhuma mãe aceita ver filho voltar machucado. Nenhum pai fica tranquilo sabendo que o filho tem medo do intervalo ou da saída. Mas a indignação precisa virar documento, não ameaça.

Fazer justiça com as próprias mãos só aumenta o risco e pode transformar uma crise escolar em tragédia. O caminho é registrar boletim de ocorrência, fotografar lesões, procurar atendimento médico quando necessário, protocolar reclamações, acionar Conselho Tutelar, Diretoria de Ensino e Ministério Público.

A VÍTIMA NÃO PODE SER PUNIDA DUAS VEZES

Uma das maiores injustiças da violência escolar é quando a vítima passa a pensar em sair. O aluno apanha, sofre, tem medo, perde rendimento, e no fim a família cogita transferência ou van escolar para fugir do problema. Isso é punir a vítima duas vezes.

O Estado oferece a escola perto de casa, mas não garante segurança. Quem queria estudar é empurrado para fora, enquanto o agressor permanece impondo medo.

NÃO BASTA REUNIÃO PARA ACALMAR OS ÂNIMOS

Por isso, a resposta não pode ser genérica. Não basta fazer reunião para acalmar os ânimos. É preciso identificar quem agride, quem ameaça, quem reincide, quem organiza briga, quem filma e expõe, quem persegue fora da escola.

Cada caso tem sua gravidade e deve ter consequência proporcional. Briga pontual é uma coisa. Bullying repetido é outra. Lesão é outra. Ameaça com objeto é outra. O que não pode é tratar tudo como “confusão de adolescente”.

PUNIR TODOS É ADMITIR DESCONTROLE

Também não resolve punir todos os alunos por causa de alguns. Se houve ameaça com garfo, por exemplo, a resposta correta não é transformar a refeição de todos em improviso.

A resposta correta é identificar quem ameaçou, registrar, chamar responsáveis e aplicar as providências cabíveis. Quando a escola tira direitos ou reduz a rotina de todos para evitar enfrentar poucos, ela transmite a pior mensagem: a de que quem faz bagunça manda no ambiente.

INAUGURAÇÃO NÃO PODE VIR ANTES DA RESPONSABILIDADE

É constrangedor falar em inauguração enquanto pais falam em medo. A foto oficial não pode ser mais importante que a segurança dos alunos. Antes de cortar fita, o Estado precisa responder quantos funcionários atuam na escola, quantos alunos estão matriculados, quais ocorrências foram registradas, quais medidas foram tomadas e que reforço será dado imediatamente.

Se houve pressa para colocar a escola em funcionamento antes de completar a estrutura, o erro precisa ser reconhecido. Educação não pode ser vitrine política.

ESCOLA NÃO É PALANQUE

Criança não é figurante de cerimônia. Professor não é escudo humano. Família não é plateia para obra pública. Escola só é conquista quando funciona com segurança, respeito e capacidade de proteger quem está dentro dela.

O Morada Verde precisa de providência, não de empurra-empurra. O Estado deve reforçar equipe, assumir a crise e responder aos pais. A Prefeitura deve cuidar do entorno e apoiar no que for possível. A direção precisa de respaldo, não de abandono. Os pais precisam educar, cobrar e documentar. E os alunos precisam entender que escola não é território sem lei.

AINDA DÁ TEMPO DE EVITAR O PIOR

O pior erro agora seria esperar. Esperar passar a inauguração. Esperar a próxima reunião. Esperar a próxima briga. Esperar a próxima mãe desesperada. Esperar uma agressão mais grave para, só então, dizer que providências serão tomadas. Os sinais já apareceram. Depois deles, ninguém poderá alegar surpresa.

A escola nova do Morada Verde ainda pode ser uma conquista. Mas, para isso, precisa deixar de ser tratada como obra entregue e passar a ser tratada como ambiente vivo, complexo e cheio de responsabilidades. Escola não é lugar de medo. E quando uma escola nova nasce cercada de medo, a obrigação das autoridades não é comemorar. É corrigir, reforçar, proteger e agir antes que o improviso vire tragédia.

 

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