30 de agosto | 2026

Ansiedade e depressão entre adolescentes exigem mais escuta e menos julgamento

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Cássio Vazão afirma que os jovens de hoje enfrentam novas pressões, mas também passaram a falar mais sobre sofrimentos que antes eram ignorados. Médico chama atenção para mudanças de comportamento, autolesão e importância do acolhimento familiar.

O aumento dos relatos de ansiedade, depressão e sofrimento emocional entre adolescentes tem exigido atenção de famílias, escolas e profissionais de saúde. Para o médico Cássio Vazão, não é correto resumir o problema dizendo que a atual geração seria simplesmente “mais fraca”.

Segundo ele, hoje existe maior capacidade de reconhecer e diagnosticar situações que anteriormente eram tratadas apenas como “coisa da idade”. Ao mesmo tempo, os adolescentes convivem com exposição constante, comparação nas redes sociais, pressão por desempenho e necessidade de aceitação.

SOFRIMENTO PODE APARECER NO COMPORTAMENTO

Vazão alerta que o sofrimento emocional nem sempre aparece como tristeza evidente. Irritabilidade, isolamento, afastamento dos amigos, perda de interesse, alterações no sono ou no apetite, queda no rendimento escolar, dificuldade de concentração e agressividade também podem indicar que algo não vai bem.

Para o médico, o mais importante é observar mudanças persistentes em relação ao comportamento habitual do adolescente. Antes de classificá-lo como preguiçoso, rebelde ou mal-educado, pais e educadores deveriam tentar compreender o que pode estar acontecendo por trás daquela mudança.

Vazão também destaca que o maior profissionalismo existente hoje no ambiente escolar tem ajudado na identificação desses sinais. Professores, educadores e equipes escolares mais atentos conseguem perceber mudanças de comportamento, isolamento, queda no rendimento e outras alterações, alertando a família e contribuindo para que o adolescente seja encaminhado para orientação antes que o problema se agrave.

ESCUTA E CONFIANÇA FAZEM PARTE DO TRATAMENTO

No consultório, Vazão considera que o atendimento humanizado começa pela escuta. Muitos adolescentes chegam fechados, desconfiados ou levados pelos pais e podem encontrar dificuldade para falar quando percebem que estão diante de mais um adulto disposto apenas a dizer o que devem fazer.

Ouvir sem ironizar, interromper ou minimizar o relato ajuda a criar confiança. Para o médico, quando o adolescente percebe que sua fala é respeitada, aumentam as chances de revelar o que realmente está vivendo e participar do próprio tratamento.

REDES SOCIAIS SÃO APENAS PARTE DO PROBLEMA

As redes sociais podem aumentar comparações e inseguranças, principalmente porque o adolescente ainda está construindo sua identidade. Vazão lembra que muitos jovens acabam comparando as dificuldades da própria vida com versões editadas e aparentemente perfeitas da vida dos outros.

Mas ele ressalta que não basta medir o tempo de tela. Sono, atividade física, convivência familiar, amizades presenciais, bullying, cobrança escolar, conflitos em casa e sensação de pertencimento também precisam ser considerados. Muitas vezes, solidão e a sensação de nunca ser bom o suficiente pesam mais do que o celular isoladamente.

AUTOLESÃO EXIGE ATENÇÃO IMEDIATA

Comportamentos de autolesão e falas relacionadas à morte não devem ser tratados como drama, chantagem ou tentativa de chamar atenção. Para Vazão, essas manifestações indicam sofrimento e precisam ser levadas a sério.

A família deve evitar sermões, acusações e comparações. Perguntar diretamente se o adolescente pensa em morrer ou se machucar pode ajudar a abrir espaço para o pedido de ajuda. Quando existe intenção, planejamento ou risco imediato, o jovem não deve ficar sozinho e precisa receber atendimento profissional ou de urgência.

ACOLHER TAMBÉM É PREVENIR

Se pudesse mudar um aspecto da maneira como a sociedade trata a saúde emocional dos adolescentes, Vazão escolheria o acolhimento. Na avaliação dele, quando adultos aprendem a ouvir melhor, também conseguem identificar sinais mais cedo e evitar que determinadas situações se agravem.

O médico observa que muitas vezes pais e educadores tentam oferecer uma solução antes mesmo de escutar toda a história. Em determinadas situações, o adolescente não precisa inicialmente de conselho, mas de alguém capaz de ouvi-lo sem julgamento.

NEM TODA TRISTEZA É DOENÇA

Vazão também pondera que nem toda tristeza, frustração, medo ou insegurança deve ser transformada automaticamente em diagnóstico. Essas emoções fazem parte da vida e também do processo de amadurecimento.

O risco está no extremo oposto: ignorar mudanças persistentes e dizer que “é apenas uma fase”. Para o médico, o desafio está em perceber quando o sofrimento começa a comprometer a escola, as amizades, a família e a vida cotidiana.

UMA GERAÇÃO QUE SOFRE E TAMBÉM FALA MAIS

Para Vazão, provavelmente as duas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo: os adolescentes enfrentam novas formas de pressão e, paralelamente, passaram a ter mais espaço para falar sobre aquilo que sentem.

Durante muitos anos, jovens em sofrimento foram classificados apenas como nervosos, difíceis, preguiçosos ou rebeldes. Hoje existe a possibilidade de olhar além do comportamento. Uma pergunta simples pode iniciar essa aproximação: “Como você está de verdade?” Mas, para o médico, tão importante quanto perguntar é estar disposto a ouvir a resposta.

 

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